Hepatologia› Hepatites Virais
Introdução
As hepatites virais representam um desafio crítico de saúde pública. Por sua importância epidemiológica, desde 1996, todos os casos confirmados são de notificação compulsória ao SINAN em até 7 dias.
As principais características das hepatites A, B, C, D e E incluem:
Hepatite B é a única cujo genoma é composto por DNA e possui o maior risco de evolução para forma fulminante.
Hepatite C é a que mais frequentemente evolui para a cronicidade (até 80%), sendo uma das principais causas de transplante hepático.
Hepatite A e E possuem transmissão predominantemente fecal-oral, enquanto B, C e D são transmitidas por via parenteral.
O diagnóstico e o manejo dependem da interpretação precisa de marcadores sorológicos e da compreensão da história natural de cada vírus.
1. Hepatite A (HAV)
A hepatite A é causada por um enterovírus de RNA da família Picornaviridae. No Brasil, sua ocorrência está fortemente ligada a baixas condições de saneamento básico e higiene.
Transmissão e Ciclo Viral
Via Principal: Fecal-oral (água ou alimentos contaminados e contato interpessoal).
Vias Raras: Transmissão sexual (anal desprotegida) e parenteral (transfusão em fase de alta viremia).
Período de Incubação: 15 a 45 dias. A maior eliminação do vírus nas fezes ocorre 1 a 2 semanas antes do início dos sintomas.
Manifestações Clínicas e Laboratoriais
Fases: como toda hepatite viral aguda, evolui em três fases — prodrômica (sintomas inespecíficos, tipo gripe), ictérica e de convalescença.
Febre: é mais comum nas hepatites A e E do que na B e na C.
Particularidades: É a hepatite viral que mais cursa com a forma colestática (icterícia, prurido, colúria e acolia).
Cronicidade e gravidade: a hepatite A não cronifica, e a forma fulminante é rara (< 1%), mais provável acima dos 50 anos ou em quem já tem hepatopatia.
Laboratório: transaminases muito elevadas (podem passar de 10x o normal, ALT > AST) — mas o grau da elevação não mede a gravidade. O Anti-HAV IgM indica infecção aguda; o Anti-HAV IgG indica imunidade (pós-infecção ou vacina, indistinguíveis entre si).
Na hepatite A, a idade decide o quadro: crianças (sobretudo menores de 6 anos) costumam ser assintomáticas ou anictéricas — por isso circulam o vírus silenciosamente; já no adulto a doença é sintomática, com icterícia em até 70%.
Prevenção e Profilaxia
Vacinação: 2 doses com intervalo de 6 meses ou dose única aos 15 meses pelo Calendário Nacional.
Profilaxia Pós-Exposição (até 14 dias):
Indivíduos saudáveis (12 meses a 40 anos): Vacina.
Menores de 12 meses, maiores de 40 anos, imunodeprimidos ou hepatopatas: Imunoglobulina.
2. Hepatite B (HBV)
O HBV é um vírus da família Hepadnaviridae, o único de DNA. Possui potencial oncogênico, podendo causar carcinoma hepatocelular (CHC) mesmo sem cirrose prévia.
Transmissão e Grupos de Risco
Via Sexual: Principal forma de contaminação atual.
Via Percutânea: Compartilhamento de agulhas, alicates e acidentes biológicos. O vírus resiste até 7 dias em superfícies.
Via Vertical: Ocorre principalmente no parto (90-95% dos casos).
Grupos de Risco: Povos indígenas, quilombolas, profissionais do sexo, usuários de drogas e pessoas privadas de liberdade.
Interpretação de Marcadores Sorológicos
Marcador | Significado Clínico |
|---|---|
HBsAg | Primeiro a aparecer; indica presença do vírus. Se > 6 meses, define cronicidade. |
Anti-HBs | Indica cura ou imunidade vacinal. É o único que confere proteção. |
Anti-HBc IgM | Marcador de infecção aguda. |
Anti-HBc IgG | Indica contato prévio com o vírus selvagem (cicatriz ou infecção crônica). |
HBeAg | Indica replicação viral ativa e alta infectividade. |
Anti-HBe | Indica fase de não replicação ou soroconversão. |

Interpretação Combinada dos Marcadores
Na prática, solicitam-se três marcadores-chave — HBsAg, Anti-HBc e Anti-HBs — e a combinação deles define o status do paciente:
HBsAg positivo: infecção pelo HBV. O Anti-HBc IgM indica infecção aguda; a persistência do HBsAg por mais de 6 meses caracteriza a forma crônica.
HBsAg negativo, Anti-HBc positivo e Anti-HBs positivo: infecção curada, com imunidade adquirida por infecção natural.
Anti-HBc positivo isolado (HBsAg e Anti-HBs negativos): resultado que exige investigação — pode representar janela imunológica, cura antiga com queda do Anti-HBs, infecção oculta ou falso-positivo.
HBsAg negativo, Anti-HBc negativo e Anti-HBs positivo: imunidade vacinal, sem contato com o vírus selvagem.
HBsAg negativo, Anti-HBc negativo e Anti-HBs negativo: paciente suscetível — indicar vacinação.
Anti-HBc IgM = aguda; HBsAg por mais de 6 meses = crônica
avaliar contato prévio e imunidade
Anti-HBs positivo = cura; Anti-HBc isolado = investigar (janela, cura antiga, oculta, falso-positivo)
História Natural e Fases
Quanto mais cedo a infecção, maior a chance de cronificar: o HBV cronifica em 90-95% dos recém-nascidos, cujo sistema imune imaturo não consegue eliminar o vírus, e em apenas 5-10% dos adultos — é por isso que a profilaxia do bebê de mãe HBsAg positivo não pode esperar.
A fase aguda passa despercebida na maioria (até 80% assintomáticos; só cerca de 25% ficam ictéricos), mas o HBV é a hepatite viral com maior risco de fulminar. A doença crônica caminha por fases: imunotolerância (muito vírus, mas o sistema imune não ataca — ALT normal, sem lesão), imunoeliminação (o imune reage, a ALT sobe e há lesão, podendo soroconverter o HBeAg), portador inativo (vírus controlado, ALT normal) e possível reativação.
Nem todo portador crônico é tratado: a terapia com antivirais (tenofovir ou entecavir) entra quando há replicação ativa com lesão (ALT elevada, HBeAg positivo) ou cirrose. Esses remédios controlam a replicação, mas não eliminam o vírus, e o tratamento costuma ser prolongado.
Manifestações Extra-Hepáticas
Ocorrem em 10-20% dos casos, sendo as principais:
Poliarterite Nodosa (PAN): Vasculite de médios e grandes vasos.
Glomerulonefrite: Mais comum em crianças (forma membranosa).
Profilaxia da Transmissão Vertical
Recém-nascidos de mães HBsAg+: Vacina + Imunoglobulina específica (HBIg) nas primeiras 12 horas de vida.
Gestantes: Uso de Tenofovir a partir da 24ª-28ª semana se HBeAg+ ou carga viral > 200.000 UI/mL.
Aleitamento: Não é contraindicado se as medidas de profilaxia forem seguidas.
3. Hepatite C (HCV)
Causada por um vírus de RNA da família Flaviviridae. É a hepatite viral que mais evolui para cirrose e indicação de transplante.
Epidemiologia e Diagnóstico
Transmissão: predominantemente parenteral. O uso de drogas (injetáveis ou inalatórias) é o principal fator de risco atual; transfusões antes de 1993, quando começou a triagem nos bancos de sangue, são suspeitas. Num acidente com material biológico, o risco de contágio é maior para o HBV (cerca de 20-30%) do que para o HCV (aproximadamente 1,8%) e o HIV (cerca de 0,3%).
Diagnóstico: Inicia-se com o Anti-HCV (marca apenas contato, não confere imunidade). A confirmação de infecção ativa exige a pesquisa do HCV-RNA (carga viral).
Cronicidade: cerca de 80% cronificam — a maior taxa entre as hepatites.
O HCV escapa duas vezes: ele muta o tempo todo (circula como várias quasispécies) e dribla a resposta imune, e a fase aguda quase sempre é silenciosa (só cerca de 20% dão sintomas) — por isso cronifica em cerca de 80% e costuma ser descoberto anos depois, já com fibrose.
Manifestações Extra-Hepáticas
A Crioglobulinemia Mista é a mais documentada, apresentando-se com púrpuras em membros inferiores, artralgia e glomerulonefrite.
Tratamento
Objetivo: Resposta Virológica Sustentada (RVS), sinônimo de cura, definida por carga viral negativa 12 ou 24 semanas após o fim do tratamento.
Protocolo: Atualmente, o tratamento é indicado para todos os pacientes infectados, independente do grau de fibrose, utilizando Antivirais de Ação Direta (DAA).
Peculiaridades: Não existe vacina ou profilaxia pós-exposição eficaz para o HCV.
4. Hepatite D (Delta) e Hepatite E
Hepatite D (HDV)
Vírus de RNA que depende obrigatoriamente da presença do HBV (HBsAg+) para se replicar.
Coinfecção: Infecção simultânea por B e D. Geralmente benigna e autolimitada.
Superinfecção: Vírus D infecta um portador crônico de B. Alto risco de hepatite fulminante (até 20%) e progressão para cirrose (80%).
Febre de Lábrea: Forma grave e fulminante comum na região Amazônica.
Hepatite E (HEV)
Vírus de RNA com transmissão fecal-oral (água contaminada). Os genótipos 3 e 4 têm ainda caráter zoonótico, transmitidos por carne suína ou de caça malcozida.
Gravidade: Extremamente perigosa para gestantes, especialmente no terceiro trimestre, com taxa de mortalidade entre 15% e 25%.
Cronicidade: Pode ocorrer em indivíduos imunodeprimidos infectados pelos genótipos 3 e 4.
Resumo Comparativo das Hepatites Virais
Vírus | Genoma | Transmissão | Vacina | Evolução para Cronicidade |
|---|---|---|---|---|
A | RNA | Fecal-Oral | Sim | Não |
B | DNA | Parenteral/Sexual | Sim | Sim (especialmente se infectado ao nascer) |
C | RNA | Parenteral | Não | Sim (maior taxa entre todas: 80%) |
D | RNA | Parenteral | Indireta (via vacina B) | Sim (na superinfecção) |
E | RNA | Fecal-Oral | Não | Apenas em imunodeprimidos |
Exercícios de fixação
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